Saí a pedalar.
Bolaño dizia que muitas vezes sobreviveu porque sabia muito bem
como eclipsar-se se as coisas realmente se pusessem negras. Com a
falta de treino custou-me subir e baixar os joelhos. Sentei-me num
banco com a bicicleta ao lado e instalei-me na minha posição
favorita: os braços a todo o cumprimento das costas do banco; as
pernas cruzadas. Isto dificulta a decisão instantânea a quem se
aproxima e pense em sentar-se ao meu lado. E as pessoas passavam,
como nunca deixam de passar ao final do dia. Estava um casal de
meia-idade num banco próximo. Descansavam com as duas bicicletas
encostadas às pernas.
Ao longe começou-se a ouvir uma ladainha. A voz como chegada de altifalantes. Por momentos pensei que estava num país islâmico e era chegada uma das horas da oração. Tentei perceber donde vinha a reza. Aproximava-se uma procissão que acabou por passar mesmo à minha frente. Atrás de mim, aparecidos de rompante e como injectados de adrenalina, começaram aos urros e aos pinotes três adolescentes vestidos de negro e com coleiras e outros objectos de metal. A maioria dos participantes na procissão conservou a atenção, ladainhando, abraçando-se, deixando o espírito subir ao céu com o auxílio dos acordes do ajudante que dedilhava uma viola. Os miúdos de negro receberam uma reprimenda da polícia montada a cavalo e logo afastaram-se levando à boca os gargalos das garrafas de plástico que transportavam. Aproximou-se um homem que passeava um cão; fez menção de se sentar ao meu lado mas percebendo que eu não dava sinais de mover os braços retomou o passo puxando pela trela o cão que, entretanto, aproveitara o afrouxamento do dono para cheirar os pneus da minha bicicleta. Tirei o braço esquerdo das costas do banco mas porque estava decidido a prosseguir marcha. Não fazia nenhuma concessão.
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