sexta-feira, 24 de abril de 2009

O ritmo da narrativa

Existe uma relação estreita entre as leitoras de Carlos Ruiz Zafón e a forma como «conversam». Devem ter apanhado o mesmo ritmo de disparo nos livros do autor. O ritmo da narrativa. Um livro que, em princípio, seria uma «criação no seu momento» transforma-se numa saga a vários tempos e a cavalo no êxito. As sequelas aparecem quando as brasas estão quase a apagar. Parece uma espécie de martírio, não sei. Os diálogos são o que os velhotes do lar precisavam para passar as tardes e manter as faculdades possíveis. Mas as leitoras. Elas também não se dão contam que falam vinte minutos seguidos. O personagem apresenta-se, longamente, a si próprio. Pavese, daquela forma rugosa com que alguns de nós se divertem, também já se assombrava com o «ritmo da narrativa». Não sei o que surgiu primeiro. Provavelmente foi o Carlinhos que detectou todo um estilo aproveitável nos modos de uma amiga. Sim, ele tem dessas amigas, digamos «delegadas». Alimenta a amizade com base na mesma vontade de domínio que o impele a escrever. Um dia, finalmente, conseguirá deitar-se ao lado de uma delas e adormecerá satisfeito enquanto ela se fechará na casa de banho. E ele não pára de escrever: aumenta o número de páginas na próxima obra pública. Elas bem dizem que «ontem à noite» comeram 300 páginas daquele livro que tem um candeeiro na capa. Que ritmo angelical.

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