terça-feira, 21 de abril de 2009

Nos intervalos da chuva

Vila-Matas é também um coleccionador de maus exemplos, isto é, de excelentes exemplos. Começou por se interessar pela capa de um livro de Marcel Duchamp onde aparecia um rosto ensaboado. «Corría el año de 1972 y tenía una cierta idea de lo que podía ser un hombre inteligente, pero ninguna sobre cómo se podía llegar a ser el hombre más molesto de todo un siglo, y eso me interesaba bárbaramente», refere sobre Obligation pour la roulette de Monte Carlo. Duchamp tinha a solução para passar nos intervalos da chuva. Não um conjunto de respostas míticas, inacessíveis e guardadas em segredo. Respostas literais, talvez menos literárias. Sem necessidade de compensações. A razão é também a de Vila-Matas: «moverse por la vida de una forma que uno pudiera llegar a una edad ya muy respetable pudiendo proclamar que todo había resultado absolutamente maravilloso». Claro, o entendimento sobre o maravilhoso poderá ser deslocado. Duchamp aclara: «Siempre me he forzado a la contradicción, para evitar conformarme con mi propio gusto». São imprescindíveis contínuos exercícios de aplicação. Não propriamente eleger uma pedra, abraçá-la, defendê-la e no final ir ao fundo com ela. Os exercícios de aplicação convergem numa única preocupação: renunciar a toda a esperança e aproveitar o tempo para viver a convalescença.
Como Piquemal. O sprinter ciclotímico que aceitando o desafio da competição às vezes se esquecia de terminar a corrida.

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