segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Material reescrito ou recente pode agora ser encontrado na Enfermaria 6. Actualizações no Facebook do blogue.
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
3 – White Cyclosa
Não
recebia visitas a diário mas surpreendia-me com a quantidade de
vezes que a campainha tocava. Pedi à empregada, que inicialmente só
vinha 3 manhãs por semana, que ampliasse os horários a todas as
manhãs com os sábados incluídos. Quando algum amigo fazia menção
de me visitar procurava que se ajustasse ao dia em que a minha
ajuda, a boa da Encarnação, estivesse por casa. Se não existisse
essa coincidência, com algum apuro, tentava que a visita fosse
adiantada ou protelada. Quando recebia visitas preferia que a
Encarnação estivesse presente. Primeiro porque a sua presença
fortificava o ambiente, conferia-lhe um tónico realmente aprazível.
Depois porque se esbatiam as minhas reservas relativas a um certo
quebranto do meu aconchego. Todas as visitas que me fizeram acabaram
por ser por mim muito estimadas. Não alimentava demasiado as
conversas, limitava-me a algumas perguntas de carácter geral e a
ouvir as respostas, não me estendia em considerações.
Interessava-me, como sempre me interessei, pelo que acontecia nos
círculos em que me movia. Dado o meu estado de convalescença,
recuperação a ritmo satisfatório segundo os médicos, as conversas
versavam com frequência sobre maleitas; mas também passares de uso
doméstico, de previsões confirmadas. Algum ziguezague profissional
de um conhecido em comum e a maioria das vezes o regresso a rumos
interrompidos que a proximidade do fim da vida activa permitia. E a
minha curiosidade estava demarcada pelas boas notícias. As visitas
foram de uma generosidade que só posso sublinhar e agradecer. Mas
houve uma excepção. E foi suficiente para interromper aquelas
semanas de agradável monotonia.
José
L. visitou-me uma segunda-feira de manhã. Telefonou-me já estava no
bairro e chegou com aquela alegria pícara de quem quer alentar com
um sem fim de mundanidades. Na verdade, tinha passado todo o fim de
semana sozinho e ainda estava meio aturdido; alguém que fazia as
honras da casa sem grande necessidade de réplica deixava-me tempo
para recuperar da minha reclusão acidental. Mas José L., dei-me
conta, vinha com uma fisgada. Tinha alguns conhecimentos na Câmara
Municipal e soube, contou, que se falava na sugestão do meu nome
para uma rua na zona de Alfragide, uma dessas urbanizações novas.
Deliberação em tempo record e aprovação por unanimidade,
prosseguia entretido. A novidade não me supôs nenhuma reacção e o
modo como José L. a transmitiu reforçou o meu desinteresse.
Considerei a notícia como totalmente alheia. Tão alheia quanto era a
minha própria morte.
Poucas
semanas depois tive ordem de restabelecer a minha rotina. Significava
que em vez de procurar não me aborrecer unicamente dentro de casa,
agora também precisava fazê-lo fora de casa. Ampliava de novo o
meu campo de batalha. Encarnação tratava das compras. Não queria
desde logo voltar aos compromissos sociais. Não querendo vaguear sem
destino uma ideia fixa se impôs: visitar Alfragide. Procurei
urbanizações de construção recente. Demorei a encontrar ruas sem
nome e na realidade apenas encontrei uma única. A rua estava
urbanizada apenas de um dos lados (com dois edifícios). Do outro
lado existia um pequeno precipício que abria a vista sobre grandes
armazéns de venda especializada. A rua tinha passeios com lancis
que delimitavam a estrada e aquilo que viria a ser uma zona com
relvado, de momento por semear, que amontoava terra, restos de
cimento, cabos de electricidade e tubos PVC de distintos tamanhos. Os
edifícios não estavam totalmente ocupados. Viam-se caixas dos
contadores, com muitos por instalar. Uma notória demora, talvez
deliberada, nos trabalhos finais. Do lado do precipício encontrei um
pequeno pilar de cimento com uma pedra ligeiramente inclinada, como a
tribuna donde os maestros seguem a partitura. Que se visse, a rua não
tinha nome. Dirigi-me ao carro e abri a porta. Ouvi outro carro
aproximar-se atrás de mim; adiantou-me e seguiu para o edifício mais
próximo. O portão de uma garagem começou a abrir-se. Hesitei em
perguntar aos ocupantes do carro se sabiam o nome da rua em que
viviam ou há quanto tempo morrera a figura que lhe dava nome.
Hesitei; senti de volta a testa a latejar. Há quantos anos morreu. A
garagem tragou o carro com a escuridão própria dos buracos. Haviam
muitos lugares fora e o sol de Outubro ainda aquecia quem se
predispunha a deixar-se estar. Ainda não morreu, podia ter escutado.
domingo, 18 de agosto de 2013
2 - Reach For The Dead
Sobretudo porque as ideias falham a fisiologia
segue o seu ritmo impiedoso. Apesar de ter vivido demasiado em pouco
tempo ainda sou jovem. O órgão vai funcionando. Conheço mulheres,
fazemos aquelas coisas que normalmente fazem um homem e uma mulher
quando chegam a um relativo consenso. Hoje, mais uma vez, fodi sem
vontade mas vim-me na mesma. Há sempre um que tem mais desejo que o
outro. Não acredito que as relações sejam equilibradas. Depois
sigo o meu caminho. Que não é nenhum. É regressar à estaca zero.
A começar tudo outra vez. Vou encontrando alguma coisa que recolho
como se fosse da berma da estrada. Para uns metros mais adiante
afastar do caminho.
E ainda assim não ando totalmente ao Deus dará. Não deixo de
procurar alguém que fale a minha língua. Mesmo que apenas arranhe.
Porque me expresso quase em dialecto. É uma espécie de narcisismo,
é certo. Suponho que nada de bom advirá desse encontro não tão
esperado. Nenhuma mudança importante; provavelmente nem sequer
duradoura. Não penso mudar nem uma vírgula do meu comportamento.
Não quero ouvir falar em… Sou múltiplo, divisível e assim
continuarei. É a única maneira de seguir adiante. Tenho que colocar
todo o meu peso, toda a minha vontade no pouco que faço. Tenho uma
propensão funesta para o imobilismo.
Um dia só restarão no mundo todas essas pessoas
que descem a avenida a pavonear-se. As cafetarias estão cheias de gente a fazer planos para ocupar as
horas seguintes e as horas depois das horas contíguas. Um ligeiro
movimento de alguém desconhecido pode permitir acumular vida.
Dignidade humana - que expressão
colossal, paradoxalmente parece-me um conceito com uma espessura
muito fina, espacial, inumana. Às vezes tenho dores. Começou o
declínio. Essas dores correspondem a momentos de desordem. Porque
perco a noção entre o bem e o mal, e o bem o mal, como devíamos
saber desde o início dos tempos, são fruto da mesma árvore. E até
a vergonha pode ser admirada, quando daqui a muito tempo for
apenas uma recordação que ataque como uma arma de plástico. A
falta de vergonha e o descaramento é que merecem ser abandonados
para sempre, se é que alguma vez foram conhecidas. Acabo a pensar
que alguma
presença de traço psicológico que não augura nada de bom está
muito de acordo com a vivência debaixo deste céu, principalmente
aqui onde
estamos.
Desespero, fixação, desconfiança, lirismo, inconstância,
isolamento, sobretudo farsa. É como comer muitos fritos e ficar
sujeito à doença cardiovascular. Claro que a medicina dos dias que
correm é bem mais prosaica. Não comas mal, não bebas muito, não
fumes nada.
Viver segundo as normas, uma
linguagem impessoal. Não me leva a lado nenhum. Existe sempre uma
série de pessoas prontas a julgarem-te; primeiro pedem-te uma
confissão qualquer, depois tu admites, confessas a primeira coisa de
que te sentes arrependido e que provavelmente não devias ter feito
daquela maneira. Confessas e pensas: Adeus,
acabou, vou para casa.
Mas não te deixam levantar. Pedem mais um minuto mas mentem.
Necessitam
todo o teu tempo.
Querem saber mais. Querem julgar-te até ao mais ínfimo pormenor,
saber todas as circunstâncias, as mais irrelevantes, como se fosses
um criminoso e todos os detalhes servissem para acentuar a pena. Tu
só queres uma série de tarde livres, longe. Porque a redenção
atinge-se sem ajuda de ninguém, sozinho. A solidão é o único que
consegue redimir. E produz bem-estar. É possível respirar com a
cadência própria da ausência de ansiedade.
Dizem que uma mulher com
quem me relacionei de
modo mais próximo durante três meses está a passar por uma
depressão gravíssima.
De facto, ela continua em casa. Eu não sei justificar-me. Não se
trata de tentar acusar-me de ser o autor moral ou algo rebuscado do
género. Deviam olhar para ela, magríssima, brilhante para alguns,
para outros apenas aplicada. Era directora financeira da empresa em
que trabalhei durante grande parte da minha vida. As horas que
trabalhava, a vida que levava. A não-vida, como a minha. Sou
contabilista e tenho trinta e cinco anos. Fui despedido há cerca de
dois, obviamente não consegui arranjar trabalho e vivo na mais
completa das penúrias, fazendo alguns serviços sobre os quais não
faço descontos nem pago impostos. Pensei em mudar de cidade e caso
não encontrasse emprego como contabilista dedicar-me a outra
actividade qualquer. Ainda não tive coragem. Partir seria como a
assunção de uma culpa que me é alheia.
Tudo começou quando devido
a um volume extraordinário de trabalho começamos a trabalhar em
equipa.
Ficávamos no escritório até mais tarde. Algumas vezes acabámos
por ir jantar fora de horas a uma cervejaria próxima. Passávamos o
dia inteiro no escritório à volta com números, tabelas e cálculos
que por força tinham que bater certo. Chegávamos à noite exaustos.
Outros colegas regressavam a casa, para junto da família. Quanto a
nós, bom, em casa ninguém nos esperava. Dava-lhe passagem quando
entrávamos na cervejaria. Ríamo-nos, gostava de vê-la rir. Podia
ser ela como podia ser outra. Éramos colegas de trabalho, ela era
minha chefe e eu não me queria meter em confusões das quais não
saberia como podia sair. Não faço ideia se alguma vez lhe peguei
nas mãos ou lhe toquei no ombro. O que é certo é que ela se
apaixonou por mim e eu simplesmente não podia partilhar o afecto.
Ela nunca me interessou dessa
maneira e
eu nunca demonstrei o contrário, nem actos, nem palavras, nem
qualquer espécie de teatro insinuante a que as pessoas cedem quando
querem seduzir e parecer almas gémeas. Matávamos a fome com um bife
e uma cerveja. Obrigava a rir-me a mim próprio depois de um dia
cansativo, mais um dia de cão. Não nego que aqueles finais do dia
me rejuvenesciam alguns minutos, talvez dez minutos. Talvez os
cabelos brancos me dessem alguma trégua. Talvez alguma ruga
considerasse adiar o seu engelhamento. Rejuvenescia dez minutos, o
dia seguinte envelhecia doze horas. O saldo era francamente negativo.
Obviamente, ela tinha algum poder dentro da
empresa e infundiu uma pena tal em tudo e todos que me acabaram por
acusar de brincar com os sentimentos
e outro tipo de grosserias que me dão vontade de vomitar.
Despediram-me sem apelo. Quando se trabalha com números é fácil
forjar uma soma mal calculada, uma subtracção penalizadora para a
casa. Alegaram alguma classe de prática
continuada e mandaram-me pensar nas
minhas acções. O mais certo foi ter
sido precisamente ela a dar a ordem. Não importa. Telefonei-lhe uma
única vez, desejei-lhe as melhoras, pedi-lhe desculpa por algum
equívoco gerado. Ela disse-me que no que aos sentimentos
concerne o tempo tudo curava e que
ficaria bem. Mas continua em casa, passado todo este tempo, sem se
relacionar, com a vida suspensa, metida na cama. Passámos um único
fim-de-semana e, fora do ambiente do trabalho, foi a única vez. Nem
viajámos juntos nem nada disso. Cada um no seu carro. Dormimos em
quartos independentes. Em andares diferentes. Não subimos ao mesmo
tempo. Ela subiu primeiro e eu fiquei a beber um wiskey com água ao
balcão do bar. Na manhã seguinte, domingo, assistimos à partida de
uma corrida dessas solidárias, como a corrida contra o cancro ou
algo do género. Provavelmente ela contou-me algum episódio familiar
triste e eu passei-lhe as costas da mão pela cara. Beijei-a na face,
os lábios como uma brisa que só intuímos porque estamos muito
atentos e predispostos a sentir um ou dois arrepios de pele. E depois
fomos parar ao fundo do poço. Nisso estamos juntos.
domingo, 14 de julho de 2013
1 - Gemini
Saí a pedalar.
Bolaño dizia que muitas vezes sobreviveu porque sabia muito bem
como eclipsar-se se as coisas realmente se pusessem negras. Com a
falta de treino custou-me subir e baixar os joelhos. Sentei-me num
banco com a bicicleta ao lado e instalei-me na minha posição
favorita: os braços a todo o cumprimento das costas do banco; as
pernas cruzadas. Isto dificulta a decisão instantânea a quem se
aproxima e pense em sentar-se ao meu lado. E as pessoas passavam,
como nunca deixam de passar ao final do dia. Estava um casal de
meia-idade num banco próximo. Descansavam com as duas bicicletas
encostadas às pernas.
Ao longe começou-se a ouvir uma ladainha. A voz como chegada de altifalantes. Por momentos pensei que estava num país islâmico e era chegada uma das horas da oração. Tentei perceber donde vinha a reza. Aproximava-se uma procissão que acabou por passar mesmo à minha frente. Atrás de mim, aparecidos de rompante e como injectados de adrenalina, começaram aos urros e aos pinotes três adolescentes vestidos de negro e com coleiras e outros objectos de metal. A maioria dos participantes na procissão conservou a atenção, ladainhando, abraçando-se, deixando o espírito subir ao céu com o auxílio dos acordes do ajudante que dedilhava uma viola. Os miúdos de negro receberam uma reprimenda da polícia montada a cavalo e logo afastaram-se levando à boca os gargalos das garrafas de plástico que transportavam. Aproximou-se um homem que passeava um cão; fez menção de se sentar ao meu lado mas percebendo que eu não dava sinais de mover os braços retomou o passo puxando pela trela o cão que, entretanto, aproveitara o afrouxamento do dono para cheirar os pneus da minha bicicleta. Tirei o braço esquerdo das costas do banco mas porque estava decidido a prosseguir marcha. Não fazia nenhuma concessão.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Viagem ao fim da noite
Tudo o
que é interessante ocorre na sombra, não há a menor dúvida. Não
se sabe nada da história autêntica dos homens, escreveu Céline
no seu terrível Viagem ao Fim
da Noite.
Saí com a mala que costumava
utilizar quando viajava em low
cost, a mala com as
dimensões adequadas
para não pagar taxas extra. Não cabia muita coisa mas não pensava
ter contactos sociais que impusessem apresentar-me limpo e engomado.
Cheguei à estação e olhei para o quadro das partidas. Tinha fome.
Resolvi apanhar um comboio que partia em hora e meia; dava-me tempo
para comer alguma coisa. O destino era indiferente. Entrei no bar e
pedi um hambúrguer. A carne estava bastante mal passada mas não
reclamei. Tinha várias horas para fazer a digestão. Muito tempo
para digerir a carne vermelha semi-crua. Dos outros acompanhamentos
não havia queixa. Notava-se que a cozinheira trabalhava com
dedicação. Havia muita gente e ela talvez quisesse, naquele
momento, despachar o maior número de clientes no menor intervalo de
tempo. Para compensar o facto da carne estar mal cozinhada mastiguei
com vagar. A primeira vantagem de decidir deitar borda fora os
objectivos é começar imediatamente a viver com lentidão.
Prolongava no paladar o sabor da carne bruta e isso era o único
inconveniente. Obstinava-me em não querer reclamar com ninguém.
Muito menos com a cozinheira de um snack-bar de uma estação de
caminho de ferro. Não chamaria o empregado. Comeria devagar,
mastigando cada troço de carne com o mesmo esmero que caracterizara
toda a minha vida até sair de casa com a mala pequena, a mala para
as viagens obrigadas, as mesmas em que me apresentava na fila para a
porta de embarque com cara de bruto; ou de carne crua, vermelha de
vergonha, ainda a verter líquido, contrariedade.
Uma vez dentro, até ao
pescoço. Não podia regressar a casa. Não tinha sítio para onde
voltar. Não apanhei o comboio dessa noite nem nenhum outro nos dias
seguintes. Podia entrar em qualquer composição e sair para
qualquer lugar. Lia os jornais que o bar da estação
disponibilizava. As secções de todos os jornais. E enojava-me.
Passeava pela gare. Assistia às despedidas dos passageiros. Um rapaz
gordo abraçava uma rapariga mais jovem. Depois do abraço ele
aproximou-se de novo e tentou beijá-la. Ela afastou a cara. Dormia
sentado nos bancos. Depois de umas noites o corpo habitua-se, o
cansaço vence a necessidade artificial de conforto. Não
cheguei ao pescoço.
Fiquei pelo caminho. E esperavam-me ainda e de certeza pediriam
explicações. Não fariam suposições porque não dou pretexto a
suposições. O pior de tudo. Conseguir razões que
satisfizessem a curiosidade doentia que questiona o porquê do
abandono.
Outras vezes voltei à estação e pedi o mesmo menú. A carne bem
cozinhada, escura, quente, gordurosa, salgada. E voltava para casa,
quente. Depois de escolher a gravata para o dia seguinte, deitava-me
e abraçava a minha mulher – que iludi com as explicações mais
verdadeiras, contraditórias. E pensava na gare e nos passageiros.
Nas raparigas jovens e incertas – que sabem gerar toda uma complexa
classe de sentimentos ambíguos. Que se libertam, soltam, só para
logo aprisionar.
sábado, 27 de outubro de 2012
A gente não dança #48
Holy Ghost! - Wait & See
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Pristina
Cheguei a Pristina via Albânia. Apanhei um ferry na cidade italiana de Brindisi e desembarquei em Vlore. Senti-me realmente feliz. O esperado seria não ser feliz na Albânia. Lembrei-me das largas avenidas de Madrid e de todos os seus habitantes. Sentei-me num banco. Havia um armazém e uma praia com muitos detritos na areia. Estavam algumas mulheres na pausa para o almoço. Comiam com um muro como balcão. Não percebi se trabalhavam no armazém ou se eram camponesas. Na berma da estrada e a uns 50 metros estava um homem, motorista, manejando um macaco hidráulico para mudar o pneu a uma caminoneta enquanto uma famílía esperava, as crianças sentadas no passeio. Primeiro experimentei os habituais pensamentos de pessoa asséptica mas depois esforçei-me por me concentrar simplesmente no caminho até ao centro. Esqueci o normal e o necessário e rapidamente desaprendi o medo sociológico.
A viagem foi longa e não muito esclarecedora uma vez que adormeci logo nas primeiras rectas. Mudei duas vezes de camioneta. A viagem a Pristina teve motivos fortemente sexuais que rapidamente se revelaram, ao mesmo tempo, motivos de ordem sentimental. Ela era uma albanesa do Kosovo, e não se mexia quando o fazíamos. Isso agradava-me muito. Manifestava-se sob o ponto de vista vocal mas não se mexia. Posicionava-se da maneira mais prazenteira possível mas mexia-se realmente poco. Na generalidade tinha pouca exigência e eu apoio toda a ausência de rebeldia. Não se ficava com a ideia de ter passado por uma qualquer revolução sexual. Não reivindicava. Cheguei ao prédio onde ela vivia com a mãe. Ela abraçou-me. A mãe tratou-me com demasiada simpatia, diria até reverência, e esse comportamento não podia ser genuíno. Tampouco me pareceu exemplar permitir-nos o desaparecimento durante meia-hora (já não nos víamos há uns meses). Mas ela ainda era genuína, os seus calções vermelhos e brancos com cordões e a sua camisola branca de alças e os seus cabelos castanhos lisos e os seus pés descalços e a sua maneira de dar a mão. A mesa da cozinha estava coberta com uma toalha de plástico que não devia ser mudada com frequência. A casa cheirava muito bem porque tinham estado a cozinhar no forno – a única fonte de calor da casa. De facto, a mesa apresentava uns quantos pratos com bom aspecto. Passei um resto de dia tranquilo; a sentir-me importante ao mesmo tempo que pensava: não é preciso muito para viver com dignidade.
No dia seguinte, a mãe saíra para trabalhar, passeámos os dois pelas imediações daquele bairro de Pristina não muito diferente das periferias de Lisboa ou Paris. Quando voltámos a casa ela pediu-me um favor a que, mesmo sendo péssimo com os trabalhos manuais, só pude aceder. Pediu-me que comprasse 3 vidros numa drogaria próxima e que os colocasse na porta do prédio – só um vidro estava intacto. Era uma fórmula óptima para ganhar a confiança e até amizade dos vizinhos. Desloquei-me à drogaria e comprei 3 vidros, prévias medidas tiradas à porta do edifício; comprei luvas e dois tubos de silicone forte. Realmente, a porta do edifício com os vidros partidos dava um aspecto contingente ou incerto a todo o espaço e tornava inverosímeis os sorrisos dos vizinhos. Pus mãos à obra. Imaginava que ela me chamava pela janela no exacto momento em que acabava de colocar o terceiro vidro. Mas coloquei os três vidros – demorando algum tempo – e ela não me chamou. Fiquei ali a olhar para o meu trabalho acabado e pensei quanto tempo durariam os vidros no sítio. Olhei para cima, para a janela, e ninguém assomava. Pensei nas estações de camionagem e em todo o bulício que geravam. Olhei para os vidros na porta. O silicone branco, fresco. Girei o pescoço uma última vez para cima e ela estendia a roupa. Os calções vermelhos e brancos pingaram e molharam-me a cara.
(Revisto.)
(Revisto.)
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Tempo, paciência, tudo
Cheguei a
casa e as portadas das janelas estavam fechadas. O meu avô
estava sentado no sofá, quase às escuras, a olhar para a televisão
apagada. Chegaste cedo, disse-me. Hoje não deixei que me demorassem,
respondi. Chegou essa carta para ti, apontou para a mesa. Deve
ser outra multa de estacionamento, respondi passando ao quarto ao
lado.
Cheirava
bem, a comida quente. Entrei no quarto e ordenei os objectos em cima
da mesa. Separei o isqueiro sem gás que tinha guardado no bolso no
ultimo sábado à noite, a caneta I Love Capri e uma palhinha usada
para beber água de coco. Guardei os objectos na gaveta. Fui à
varanda. Os sinais sonoros para os cegos já estavam desligados.
Voltei a entrar. O meu avô já tinha jantado e continuava sentado no
sofá com o olhar incerto. Preparei um prato e sentei-me ao lado
dele. Estava com fome mas gosto de comer devagar. Para me obrigar a
não perder o rito, coloquei o prato no colo. Evitar virar o prato
obrigava-me a comer devagar. Vou-me deitar, amanhã tenho outra vez
que me levantar cedo para tirar toda a merda que tenho no sangue, que
tal o dia, safas-te com o francês ou quê? Vou-me safando, de
qualquer maneira tento falar o mínimo possível seja em que idioma
for; o imprescindível e calo-me em seguida. Só conheci o
imprescindível e isso só originou equivocos à minha volta,
explicar um pouco não custa nada. Não te preocupes, no sábado
estive à conversa uma série de horas e não me custou; deu-me
prazer; às vezes apetece-me falar outras nem por isso. É melhor que
dês uma vista de olhos nessa carta, até amanhã. Descansa, até
amanhã.
Abri o
envelope. A carta mencionava um qualquer quilómetro da auto-estrada
com uma série de dados factuais preparados para não deixar qualquer
margem de dúvida em relação a uma espécie de falta contra a
segurança rodoviária. Apontei os dados de pagamento e depois
rasguei as três folhas em duas partes iguais, depois em quatro e
depois em oito. Deixas-as em cima da mesa ao lado do envelope e do
prato sujo de macarrão com tomate.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Não haverá mancha
Fui destacado para a vila de P. O guarda florestal local adoecera gravemente e eu desde que comecei a minha vida profissional sempre preenchí o x no quadrado da disponibilidade para mudar de residência. Mesmo quando encontrava algum trabalho que me agradava, mesmo quando vivia alguma relação bem encaminhada. Às vezes pergunto-me qual a necessidade da ruptura cíclica. Mas não é uma escolha consciente, simplesmente as coisas vão acontecendo sem que eu tente contrariá-las. É desse modo que se pode entrar nos labirintos mais intricados, constituindo-me eu próprio um doente ou fingidor, provavelmente um fingidor. Instalei-me numa pensão à entrada da vila onde também funcionava um café e uma bomba de gasolina. Paravam por ali alguns locais, poucos forasteiros.
Foi-me dispensado um jipe com uma quantidade de quilómetros que não aconselhava afastar-se do alcatrão. A curiosidade e a minha imprudência congénita levava a distanciar-me muito para além dos limites da vila pelos caminhos interiores da reserva protegida. O motor aquecia e o desgaste das peças aumentava. Algumas vezes houve que reparar alguma avaria no imediato, com as mãos e a ajuda das ferramentas disponíveis. Após meio dia de capô aberto, o motor voltava a funcionar. Regressava à pensão com as mãos ainda negras do óleo; no relatório diário nunca mencionava nenhum incidente destes – era indiferente, não havia orçamento para substituir peças. Chegava com as mãos sujas de óleo seco. Era de esperar que alguém olhasse para as minhas mãos. Os percalços não são incríveis e não me causam admiração: “Um pequeno transtorno, um atraso insignificante, o tempo de perceber onde estava a avaria para poder consertá-la. O óleo resequido desaparece com água e sabão. Não haverá mancha. Não deixarei marcas. Continuarei a cumprimentar quem quer que seja; fechar a mão sobre a mão de qualquer um; sem luvas, tocar a cara de alguém. O jipe tem um rádio roufenho que só se cala quando acabo o dia. Amanhã o motor vai funcionar melhor que nunca. Posso voltar a ouvir as notícias de hora a hora.”
sábado, 25 de agosto de 2012
A gente não dança #46
The Rapture - In the Grace of your Love
terça-feira, 14 de agosto de 2012
domingo, 5 de agosto de 2012
and tragic self-isolation
domingo, 24 de junho de 2012
Cadaqués
Ao
intervalo fui apanhar ar. Do lado esquerdo da rua aproximava-se uma
rapariga que caminhava cambaleando. Trazia um casaco vermelho que
contrastava de modo provocador com os cabelos loiros que lhe caíam
sobre os ombros. Um carro acelerou na sua direcção e ela
aproximou-se dos carros estacionados na berma. Parou junto a um dos
carros e viu-se ao espelho retrovisor. Passou a mão pelo cabelo. Os
fios de cabelo que lhe tocavam os ombros estavam oleosos e colavam-se
uns aos outros, como uma mão cheia de palha húmida atada com um
cordel. Quando reiniciou a caminhada os passos pareciam ainda mais
inseguros. Acenou a um táxi que não se deteve e passou à minha
frente sem notar a minha presença. Podia chamá-la pelo nome mas
preferi voltar ao meu lugar ao balcão. Sabia que ela chegaria à
porta do prédio e se sentaria à minha espera no banco que havia em
frente.
Todas
as semanas voltava com uma garrafa de espumante. Pedia-me que a
abrisse. Declinava esse pequeno gesto de celebração. A rolha
saltava. Parecia expulsa com o impulso quebrado de todo o vácuo
acumulado na minha sala. De semanas anteriores, acumulavam-se algumas
rolhas no chão. Ela notava o meu desleixo mas era-lhe indiferente.
Deixava-lhe o primeiro trago. Molhava os lábios, que ficavam
brilhantes, e passava-me a garrafa. Perguntava-lhe que tal as coisas
e dava sempre a mesma resposta: começaria com aulas de inglês e
estava a ponto de inscrever-se num curso para hospedeiras de bordo.
Sempre a mesma resposta. Ela de pé e eu sentado no sofá verde.
Dizia-lhe que estava cansado e olhava pela janela aberta. Não havia
nenhum ponto de interesse que me fixasse a atenção. Um carro
buzinava. Grande parte dos vizinhos despachava o problema de
estacionamento deixando o carro em segunda fila. Ali os carros
buzinavam sempre. Acordava de noite com os carros a buzinarem.
Algumas vezes não conseguia voltar a conciliar o sono e dava voltas
na cama até o despertador tocar. Não me importava. Não adormecia e
não chegava tarde ao trabalho. Acumulava poupanças para umas férias
em Cadaqués. Alugaria um quarto numa rua que não tivesse mais de 6
metros de largura e enquanto ela me beijava o pescoço imaginava-me
em Cadaqués; imaginava a sua saliva como a água morna do
mediterrâneo.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Crazy Clown Time
David Lynch - Crazy Clown Time
sábado, 28 de abril de 2012
A gente não dança #43
Bloc Party - One More Chance
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Amo Bishop Roden
Apaixonou-se pela integrante de uma seita
religiosa; dissidente dos Protestantes e originária dos Estados Unidos mas com
seguidores um pouco por toda a Europa. Estava internado num hospital. Na cama ao
lado estava um seguidor da seita, tão moribundo quanto convencido da vida
eterna que o esperava. Um grupo reformista que estudava a Bíblia, ano após ano,
desde o Génesis ao Apocalipse. Todos os ofícios tinham por base a leitura e o
comentário da Bíblia como texto fundador. Ela veio um dia de semana à tarde, já
depois do horário normal da visita. Deve ter convencido as enfermeiras da
bondade e necessidade da sua presença consoladora. Dar ânimo ao moribundo.
Ajeitou a roupa da cama. Comentou algo relacionado com a luz que entrava pela
janela. Não tinha outra ambição para além da vida eterna num vindouro paraíso
celestial. Notava-se no modo como tocava nas coisas. Notava-se-lhe nas mãos.
Colocava um extremo cuidado no modo como tocava. Como se a sua carícia
cicatrizasse. O seu objectivo era passar com distinção no dia do julgamento
final. E o moribundo, como seria de esperar, morreu ao seu lado. Não sem antes
o ter visitado umas quantas vezes mais. Isso deu-lhe a oportunidade para
conhecê-la. Trabalhava num escritório de transitários que estava à beira da
falência. Nos tempos mortos lia os versículos do novo testamento com a concentração
com que as crianças vêem pela primeira vez no circo o domador enfiar a cabeça
na boca do leão. Uma pessoa com o seu temperamento, niilista, anárquico, seria
decerto a última pessoa do mundo a quem ela chegaria a dar atenção.
(...)
terça-feira, 27 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
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José caminhava pelo passeio. Dirigia-se à paragem do metro de superfície. Reconheci-o pela mala castanha que levava todos os dias. A mala de pele cheirava a comida, a refogado de cebola. Todos os dias José chegava ao escritório uns minutos depois de mim. Passava pela minha secretária e trocávamos umas impressões. As flutuações relativas às entradas nas páginas, os países de origem, as subidas e descidas no Google, a optimização de campanhas de publicidade, etc. Colocava a sua mala em cima da minha secretária e imediatamente cheirava a refogado de cebola. Imaginava que José chegaria a casa e deixaria a mala em cima de uma cadeira da cozinha ou directamente em cima da mesa. Revia alguns documentos enquanto a cebola dourava com a ajuda do azeite a ferver.
Anoitecera e os ramos das árvores da avenida filtravam a pouca luz que chegava desde o céu. Terminava mais um dia de trabalho. Acabava de arrancar o carro e abrandei a marcha logo que o reconheci. José era um solitário. Paradoxalmente, são os solitários que mais te podem surpreender. De entrada, terão uma visão das coisas menos permeável. É certo que algum deles também pode ser assassinos em série. Via todos os dias os jornais e não tinha informação da existência de qualquer assassinato nos últimos tempos. E encontro nas pessoas solitárias uma qualidade rara: não interrompem. Mesmo que mal interpretem, a seu bel-prazer, sabem escutar. Pelo menos mantêm-se mais tempo calados.
Convidei-o a entrar no carro. Comentámos o último despedimento na empresa. “Simone falava muito, tinha muitas opiniões”, concluí. Sem surpresa e porque José, segundo parecia, não entendia a correlação entre falar muito e ser despedido, entendeu que a ex-colaboradora falaria dele próprio, enquanto homem, suponho, porque mostrou-me um sorriso insinuante. Desviei a conversa porque não queria ser desmancha-prazeres. Falámos de trabalho. De últimos projectos. José trabalhava num programa capaz de conter todas as palavra e respectivos sinónimos da língua espanhola. Trabalhava sobre a versão inglesa, a única existente até ao momento. Falou-me de um programa bastante elaborado que não faria outra cosa senão atulhar a internet ainda com mais lixo. Como não percebia nenhum entusiasmo da minha parte mudou de assunto. Perguntou-me qualquer coisa sobre o ambiente de conflito que se vivia. Respondi-lhe que me era indiferente. Ele também pareceu não ter nenhuma opinião a respeito. Seguimos a viagem calados e apesar de não sermos amigos o silêncio não era incómodo.
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