segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Relatórios do Interior, o meu novo blogue; funcionará como um arquivo vivo dos meus últimos textos (provavelmente todos ficcionais).

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

3 – White Cyclosa



Não recebia visitas a diário mas surpreendia-me com a quantidade de vezes que a campainha tocava. Pedi à empregada, que inicialmente só vinha 3 manhãs por semana, que ampliasse os horários a todas as manhãs com os sábados incluídos. Quando algum amigo fazia menção de me visitar procurava que se ajustasse ao dia em que a minha ajuda, a boa da Encarnação, estivesse por casa. Se não existisse essa coincidência, com algum apuro, tentava que a visita fosse adiantada ou protelada. Quando recebia visitas preferia que a Encarnação estivesse presente. Primeiro porque a sua presença fortificava o ambiente, conferia-lhe um tónico realmente aprazível. Depois porque se esbatiam as minhas reservas relativas a um certo quebranto do meu aconchego. Todas as visitas que me fizeram acabaram por ser por mim muito estimadas. Não alimentava demasiado as conversas, limitava-me a algumas perguntas de carácter geral e a ouvir as respostas, não me estendia em considerações. Interessava-me, como sempre me interessei, pelo que acontecia nos círculos em que me movia. Dado o meu estado de convalescença, recuperação a ritmo satisfatório segundo os médicos, as conversas versavam com frequência sobre maleitas; mas também passares de uso doméstico, de previsões confirmadas. Algum ziguezague profissional de um conhecido em comum e a maioria das vezes o regresso a rumos interrompidos que a proximidade do fim da vida activa permitia. E a minha curiosidade estava demarcada pelas boas notícias. As visitas foram de uma generosidade que só posso sublinhar e agradecer. Mas houve uma excepção. E foi suficiente para interromper aquelas semanas de agradável monotonia.

José L. visitou-me uma segunda-feira de manhã. Telefonou-me já estava no bairro e chegou com aquela alegria pícara de quem quer alentar com um sem fim de mundanidades. Na verdade, tinha passado todo o fim de semana sozinho e ainda estava meio aturdido; alguém que fazia as honras da casa sem grande necessidade de réplica deixava-me tempo para recuperar da minha reclusão acidental. Mas José L., dei-me conta, vinha com uma fisgada. Tinha alguns conhecimentos na Câmara Municipal e soube, contou, que se falava na sugestão do meu nome para uma rua na zona de Alfragide, uma dessas urbanizações novas. Deliberação em tempo record e aprovação por unanimidade, prosseguia entretido. A novidade não me supôs nenhuma reacção e o modo como José L. a transmitiu reforçou o meu desinteresse. Considerei a notícia como totalmente alheia. Tão alheia quanto era a minha própria morte.

Poucas semanas depois tive ordem de restabelecer a minha rotina. Significava que em vez de procurar não me aborrecer unicamente dentro de casa, agora também precisava fazê-lo fora de casa. Ampliava de novo o meu campo de batalha. Encarnação tratava das compras. Não queria desde logo voltar aos compromissos sociais. Não querendo vaguear sem destino uma ideia fixa se impôs: visitar Alfragide. Procurei urbanizações de construção recente. Demorei a encontrar ruas sem nome e na realidade apenas encontrei uma única. A rua estava urbanizada apenas de um dos lados (com dois edifícios). Do outro lado existia um pequeno precipício que abria a vista sobre grandes armazéns de venda especializada. A rua tinha passeios com lancis que delimitavam a estrada e aquilo que viria a ser uma zona com relvado, de momento por semear, que amontoava terra, restos de cimento, cabos de electricidade e tubos PVC de distintos tamanhos. Os edifícios não estavam totalmente ocupados. Viam-se caixas dos contadores, com muitos por instalar. Uma notória demora, talvez deliberada, nos trabalhos finais. Do lado do precipício encontrei um pequeno pilar de cimento com uma pedra ligeiramente inclinada, como a tribuna donde os maestros seguem a partitura. Que se visse, a rua não tinha nome. Dirigi-me ao carro e abri a porta. Ouvi outro carro aproximar-se atrás de mim; adiantou-me e seguiu para o edifício mais próximo. O portão de uma garagem começou a abrir-se. Hesitei em perguntar aos ocupantes do carro se sabiam o nome da rua em que viviam ou há quanto tempo morrera a figura que lhe dava nome. Hesitei; senti de volta a testa a latejar. Há quantos anos morreu. A garagem tragou o carro com a escuridão própria dos buracos. Haviam muitos lugares fora e o sol de Outubro ainda aquecia quem se predispunha a deixar-se estar. Ainda não morreu, podia ter escutado.

domingo, 18 de agosto de 2013

2 - Reach For The Dead


Sobretudo porque as ideias falham a fisiologia segue o seu ritmo impiedoso. Apesar de ter vivido demasiado em pouco tempo ainda sou jovem. O órgão vai funcionando. Conheço mulheres, fazemos aquelas coisas que normalmente fazem um homem e uma mulher quando chegam a um relativo consenso. Hoje, mais uma vez, fodi sem vontade mas vim-me na mesma. Há sempre um que tem mais desejo que o outro. Não acredito que as relações sejam equilibradas. Depois sigo o meu caminho. Que não é nenhum. É regressar à estaca zero. A começar tudo outra vez. Vou encontrando alguma coisa que recolho como se fosse da berma da estrada. Para uns metros mais adiante afastar do caminho. E ainda assim não ando totalmente ao Deus dará. Não deixo de procurar alguém que fale a minha língua. Mesmo que apenas arranhe. Porque me expresso quase em dialecto. É uma espécie de narcisismo, é certo. Suponho que nada de bom advirá desse encontro não tão esperado. Nenhuma mudança importante; provavelmente nem sequer duradoura. Não penso mudar nem uma vírgula do meu comportamento. Não quero ouvir falar em… Sou múltiplo, divisível e assim continuarei. É a única maneira de seguir adiante. Tenho que colocar todo o meu peso, toda a minha vontade no pouco que faço. Tenho uma propensão funesta para o imobilismo.
 
Um dia só restarão no mundo todas essas pessoas que descem a avenida a pavonear-se. As cafetarias estão cheias de gente a fazer planos para ocupar as horas seguintes e as horas depois das horas contíguas. Um ligeiro movimento de alguém desconhecido pode permitir acumular vida. Dignidade humana - que expressão colossal, paradoxalmente parece-me um conceito com uma espessura muito fina, espacial, inumana. Às vezes tenho dores. Começou o declínio. Essas dores correspondem a momentos de desordem. Porque perco a noção entre o bem e o mal, e o bem o mal, como devíamos saber desde o início dos tempos, são fruto da mesma árvore. E até a vergonha pode ser admirada, quando daqui a muito tempo for apenas uma recordação que ataque como uma arma de plástico. A falta de vergonha e o descaramento é que merecem ser abandonados para sempre, se é que alguma vez foram conhecidas. Acabo a pensar que alguma presença de traço psicológico que não augura nada de bom está muito de acordo com a vivência debaixo deste céu, principalmente aqui onde estamos. Desespero, fixação, desconfiança, lirismo, inconstância, isolamento, sobretudo farsa. É como comer muitos fritos e ficar sujeito à doença cardiovascular. Claro que a medicina dos dias que correm é bem mais prosaica. Não comas mal, não bebas muito, não fumes nada.
 
Viver segundo as normas, uma linguagem impessoal. Não me leva a lado nenhum. Existe sempre uma série de pessoas prontas a julgarem-te; primeiro pedem-te uma confissão qualquer, depois tu admites, confessas a primeira coisa de que te sentes arrependido e que provavelmente não devias ter feito daquela maneira. Confessas e pensas: Adeus, acabou, vou para casa. Mas não te deixam levantar. Pedem mais um minuto mas mentem. Necessitam todo o teu tempo. Querem saber mais. Querem julgar-te até ao mais ínfimo pormenor, saber todas as circunstâncias, as mais irrelevantes, como se fosses um criminoso e todos os detalhes servissem para acentuar a pena. Tu só queres uma série de tarde livres, longe. Porque a redenção atinge-se sem ajuda de ninguém, sozinho. A solidão é o único que consegue redimir. E produz bem-estar. É possível respirar com a cadência própria da ausência de ansiedade.
 
Dizem que uma mulher com quem me relacionei de modo mais próximo durante três meses está a passar por uma depressão gravíssima. De facto, ela continua em casa. Eu não sei justificar-me. Não se trata de tentar acusar-me de ser o autor moral ou algo rebuscado do género. Deviam olhar para ela, magríssima, brilhante para alguns, para outros apenas aplicada. Era directora financeira da empresa em que trabalhei durante grande parte da minha vida. As horas que trabalhava, a vida que levava. A não-vida, como a minha. Sou contabilista e tenho trinta e cinco anos. Fui despedido há cerca de dois, obviamente não consegui arranjar trabalho e vivo na mais completa das penúrias, fazendo alguns serviços sobre os quais não faço descontos nem pago impostos. Pensei em mudar de cidade e caso não encontrasse emprego como contabilista dedicar-me a outra actividade qualquer. Ainda não tive coragem. Partir seria como a assunção de uma culpa que me é alheia.
 
Tudo começou quando devido a um volume extraordinário de trabalho começamos a trabalhar em equipa. Ficávamos no escritório até mais tarde. Algumas vezes acabámos por ir jantar fora de horas a uma cervejaria próxima. Passávamos o dia inteiro no escritório à volta com números, tabelas e cálculos que por força tinham que bater certo. Chegávamos à noite exaustos. Outros colegas regressavam a casa, para junto da família. Quanto a nós, bom, em casa ninguém nos esperava. Dava-lhe passagem quando entrávamos na cervejaria. Ríamo-nos, gostava de vê-la rir. Podia ser ela como podia ser outra. Éramos colegas de trabalho, ela era minha chefe e eu não me queria meter em confusões das quais não saberia como podia sair. Não faço ideia se alguma vez lhe peguei nas mãos ou lhe toquei no ombro. O que é certo é que ela se apaixonou por mim e eu simplesmente não podia partilhar o afecto. Ela nunca me interessou dessa maneira e eu nunca demonstrei o contrário, nem actos, nem palavras, nem qualquer espécie de teatro insinuante a que as pessoas cedem quando querem seduzir e parecer almas gémeas. Matávamos a fome com um bife e uma cerveja. Obrigava a rir-me a mim próprio depois de um dia cansativo, mais um dia de cão. Não nego que aqueles finais do dia me rejuvenesciam alguns minutos, talvez dez minutos. Talvez os cabelos brancos me dessem alguma trégua. Talvez alguma ruga considerasse adiar o seu engelhamento. Rejuvenescia dez minutos, o dia seguinte envelhecia doze horas. O saldo era francamente negativo.
 
Obviamente, ela tinha algum poder dentro da empresa e infundiu uma pena tal em tudo e todos que me acabaram por acusar de brincar com os sentimentos e outro tipo de grosserias que me dão vontade de vomitar. Despediram-me sem apelo. Quando se trabalha com números é fácil forjar uma soma mal calculada, uma subtracção penalizadora para a casa. Alegaram alguma classe de prática continuada e mandaram-me pensar nas minhas acções. O mais certo foi ter sido precisamente ela a dar a ordem. Não importa. Telefonei-lhe uma única vez, desejei-lhe as melhoras, pedi-lhe desculpa por algum equívoco gerado. Ela disse-me que no que aos sentimentos concerne o tempo tudo curava e que ficaria bem. Mas continua em casa, passado todo este tempo, sem se relacionar, com a vida suspensa, metida na cama. Passámos um único fim-de-semana e, fora do ambiente do trabalho, foi a única vez. Nem viajámos juntos nem nada disso. Cada um no seu carro. Dormimos em quartos independentes. Em andares diferentes. Não subimos ao mesmo tempo. Ela subiu primeiro e eu fiquei a beber um wiskey com água ao balcão do bar. Na manhã seguinte, domingo, assistimos à partida de uma corrida dessas solidárias, como a corrida contra o cancro ou algo do género. Provavelmente ela contou-me algum episódio familiar triste e eu passei-lhe as costas da mão pela cara. Beijei-a na face, os lábios como uma brisa que só intuímos porque estamos muito atentos e predispostos a sentir um ou dois arrepios de pele. E depois fomos parar ao fundo do poço. Nisso estamos juntos.

domingo, 14 de julho de 2013

1 - Gemini

 
 
Saí a pedalar. Bolaño dizia que muitas vezes sobreviveu porque sabia muito bem como eclipsar-se se as coisas realmente se pusessem negras. Com a falta de treino custou-me subir e baixar os joelhos. Sentei-me num banco com a bicicleta ao lado e instalei-me na minha posição favorita: os braços a todo o cumprimento das costas do banco; as pernas cruzadas. Isto dificulta a decisão instantânea a quem se aproxima e pense em sentar-se ao meu lado. E as pessoas passavam, como nunca deixam de passar ao final do dia. Estava um casal de meia-idade num banco próximo. Descansavam com as duas bicicletas encostadas às pernas.

Ao longe começou-se a ouvir uma ladainha. A voz como chegada de altifalantes. Por momentos pensei que estava num país islâmico e era chegada uma das horas da oração. Tentei perceber donde vinha a reza. Aproximava-se uma procissão que acabou por passar mesmo à minha frente. Atrás de mim, aparecidos de rompante e como injectados de adrenalina, começaram aos urros e aos pinotes três adolescentes vestidos de negro e com coleiras e outros objectos de metal. A maioria dos participantes na procissão conservou a atenção, ladainhando, abraçando-se, deixando o espírito subir ao céu com o auxílio dos acordes do ajudante que dedilhava uma viola. Os miúdos de negro receberam uma reprimenda da polícia montada a cavalo e logo afastaram-se levando à boca os gargalos das garrafas de plástico que transportavam. Aproximou-se um homem que passeava um cão; fez menção de se sentar ao meu lado mas percebendo que eu não dava sinais de mover os braços retomou o passo puxando pela trela o cão que, entretanto, aproveitara o afrouxamento do dono para cheirar os pneus da minha bicicleta. Tirei o braço esquerdo das costas do banco mas porque estava decidido a prosseguir marcha. Não fazia nenhuma concessão.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viagem ao fim da noite

Tudo o que é interessante ocorre na sombra, não há a menor dúvida. Não se sabe nada da história autêntica dos homens, escreveu Céline no seu terrível Viagem ao Fim da Noite.
Saí com a mala que costumava utilizar quando viajava em low cost, a mala com as dimensões adequadas para não pagar taxas extra. Não cabia muita coisa mas não pensava ter contactos sociais que impusessem apresentar-me limpo e engomado. Cheguei à estação e olhei para o quadro das partidas. Tinha fome. Resolvi apanhar um comboio que partia em hora e meia; dava-me tempo para comer alguma coisa. O destino era indiferente. Entrei no bar e pedi um hambúrguer. A carne estava bastante mal passada mas não reclamei. Tinha várias horas para fazer a digestão. Muito tempo para digerir a carne vermelha semi-crua. Dos outros acompanhamentos não havia queixa. Notava-se que a cozinheira trabalhava com dedicação. Havia muita gente e ela talvez quisesse, naquele momento, despachar o maior número de clientes no menor intervalo de tempo. Para compensar o facto da carne estar mal cozinhada mastiguei com vagar. A primeira vantagem de decidir deitar borda fora os objectivos é começar imediatamente a viver com lentidão. Prolongava no paladar o sabor da carne bruta e isso era o único inconveniente. Obstinava-me em não querer reclamar com ninguém. Muito menos com a cozinheira de um snack-bar de uma estação de caminho de ferro. Não chamaria o empregado. Comeria devagar, mastigando cada troço de carne com o mesmo esmero que caracterizara toda a minha vida até sair de casa com a mala pequena, a mala para as viagens obrigadas, as mesmas em que me apresentava na fila para a porta de embarque com cara de bruto; ou de carne crua, vermelha de vergonha, ainda a verter líquido, contrariedade.
 
Uma vez dentro, até ao pescoço. Não podia regressar a casa. Não tinha sítio para onde voltar. Não apanhei o comboio dessa noite nem nenhum outro nos dias seguintes. Podia entrar em qualquer composição e sair para qualquer lugar. Lia os jornais que o bar da estação disponibilizava. As secções de todos os jornais. E enojava-me. Passeava pela gare. Assistia às despedidas dos passageiros. Um rapaz gordo abraçava uma rapariga mais jovem. Depois do abraço ele aproximou-se de novo e tentou beijá-la. Ela afastou a cara. Dormia sentado nos bancos. Depois de umas noites o corpo habitua-se, o cansaço vence a necessidade artificial de conforto. Não cheguei ao pescoço. Fiquei pelo caminho. E esperavam-me ainda e de certeza pediriam explicações. Não fariam suposições porque não dou pretexto a suposições. O pior de tudo. Conseguir razões que satisfizessem a curiosidade doentia que questiona o porquê do abandono.
 
Outras vezes voltei à estação e pedi o mesmo menú. A carne bem cozinhada, escura, quente, gordurosa, salgada. E voltava para casa, quente. Depois de escolher a gravata para o dia seguinte, deitava-me e abraçava a minha mulher – que iludi com as explicações mais verdadeiras, contraditórias. E pensava na gare e nos passageiros. Nas raparigas jovens e incertas – que sabem gerar toda uma complexa classe de sentimentos ambíguos. Que se libertam, soltam, só para logo aprisionar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Pristina

Cheguei a Pristina via Albânia. Apanhei um ferry na cidade italiana de Brindisi e desembarquei em Vlore. Senti-me realmente feliz. O esperado seria não ser feliz na Albânia. Lembrei-me das largas avenidas de Madrid e de todos os seus habitantes. Sentei-me num banco. Havia um armazém e uma praia com muitos detritos na areia. Estavam algumas mulheres na pausa para o almoço. Comiam com um muro como balcão. Não percebi se trabalhavam no armazém ou se eram camponesas. Na berma da estrada e a uns 50 metros estava um homem, motorista, manejando um macaco hidráulico para mudar o pneu a uma caminoneta enquanto uma famílía esperava, as crianças sentadas no passeio. Primeiro experimentei os habituais pensamentos de pessoa asséptica mas depois esforçei-me por me concentrar simplesmente no caminho até ao centro. Esqueci o normal e o necessário e rapidamente desaprendi o medo sociológico.

A viagem foi longa e não muito esclarecedora uma vez que adormeci logo nas primeiras rectas. Mudei duas vezes de camioneta. A viagem a Pristina teve motivos fortemente sexuais que rapidamente se revelaram, ao mesmo tempo, motivos de ordem sentimental. Ela era uma albanesa do Kosovo, e não se mexia quando o fazíamos. Isso agradava-me muito. Manifestava-se sob o ponto de vista vocal mas não se mexia. Posicionava-se da maneira mais prazenteira possível mas mexia-se realmente poco. Na generalidade tinha pouca exigência e eu apoio toda a ausência de rebeldia. Não se ficava com a ideia de ter passado por uma qualquer revolução sexual. Não reivindicava. Cheguei ao prédio onde ela vivia com a mãe. Ela abraçou-me. A mãe tratou-me com demasiada simpatia, diria até reverência, e esse comportamento não podia ser genuíno. Tampouco me pareceu exemplar permitir-nos o desaparecimento durante meia-hora (já não nos víamos há uns meses). Mas ela ainda era genuína, os seus calções vermelhos e brancos com cordões e a sua camisola branca de alças e os seus cabelos castanhos lisos e os seus pés descalços e a sua maneira de dar a mão. A mesa da cozinha estava coberta com uma toalha de plástico que não devia ser mudada com frequência. A casa cheirava muito bem porque tinham estado a cozinhar no forno – a única fonte de calor da casa. De facto, a mesa apresentava uns quantos pratos com bom aspecto. Passei um resto de dia tranquilo; a sentir-me importante ao mesmo tempo que pensava: não é preciso muito para viver com dignidade.

No dia seguinte, a mãe saíra para trabalhar, passeámos os dois pelas imediações daquele bairro de Pristina não muito diferente das periferias de Lisboa ou Paris. Quando voltámos a casa ela pediu-me um favor a que, mesmo sendo péssimo com os trabalhos manuais, só pude aceder. Pediu-me que comprasse 3 vidros numa drogaria próxima e que os colocasse na porta do prédio – só um vidro estava intacto. Era uma fórmula óptima para ganhar a confiança e até amizade dos vizinhos. Desloquei-me à drogaria e comprei 3 vidros, prévias medidas tiradas à porta do edifício; comprei luvas e dois tubos de silicone forte. Realmente, a porta do edifício com os vidros partidos dava um aspecto contingente ou incerto a todo o espaço e tornava inverosímeis os sorrisos dos vizinhos. Pus mãos à obra. Imaginava que ela me chamava pela janela no exacto momento em que acabava de colocar o terceiro vidro. Mas coloquei os três vidros – demorando algum tempo – e ela não me chamou. Fiquei ali a olhar para o meu trabalho acabado e pensei quanto tempo durariam os vidros no sítio. Olhei para cima, para a janela, e ninguém assomava. Pensei nas estações de camionagem e em todo o bulício que geravam. Olhei para os vidros na porta. O silicone branco, fresco. Girei o pescoço uma última vez para cima e ela estendia a roupa. Os calções vermelhos e brancos pingaram e molharam-me a cara.

(Revisto.)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Tempo, paciência, tudo

Cheguei a casa e as portadas das janelas estavam fechadas. O meu avô estava sentado no sofá, quase às escuras, a olhar para a televisão apagada. Chegaste cedo, disse-me. Hoje não deixei que me demorassem, respondi. Chegou essa carta para ti, apontou para a mesa. Deve ser outra multa de estacionamento, respondi passando ao quarto ao lado.

Cheirava bem, a comida quente. Entrei no quarto e ordenei os objectos em cima da mesa. Separei o isqueiro sem gás que tinha guardado no bolso no ultimo sábado à noite, a caneta I Love Capri e uma palhinha usada para beber água de coco. Guardei os objectos na gaveta. Fui à varanda. Os sinais sonoros para os cegos já estavam desligados. Voltei a entrar. O meu avô já tinha jantado e continuava sentado no sofá com o olhar incerto. Preparei um prato e sentei-me ao lado dele. Estava com fome mas gosto de comer devagar. Para me obrigar a não perder o rito, coloquei o prato no colo. Evitar virar o prato obrigava-me a comer devagar. Vou-me deitar, amanhã tenho outra vez que me levantar cedo para tirar toda a merda que tenho no sangue, que tal o dia, safas-te com o francês ou quê? Vou-me safando, de qualquer maneira tento falar o mínimo possível seja em que idioma for; o imprescindível e calo-me em seguida. Só conheci o imprescindível e isso só originou equivocos à minha volta, explicar um pouco não custa nada. Não te preocupes, no sábado estive à conversa uma série de horas e não me custou; deu-me prazer; às vezes apetece-me falar outras nem por isso. É melhor que dês uma vista de olhos nessa carta, até amanhã. Descansa, até amanhã.

Abri o envelope. A carta mencionava um qualquer quilómetro da auto-estrada com uma série de dados factuais preparados para não deixar qualquer margem de dúvida em relação a uma espécie de falta contra a segurança rodoviária. Apontei os dados de pagamento e depois rasguei as três folhas em duas partes iguais, depois em quatro e depois em oito. Deixas-as em cima da mesa ao lado do envelope e do prato sujo de macarrão com tomate.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Não haverá mancha

Fui destacado para a vila de P. O guarda florestal local adoecera gravemente e eu desde que comecei a minha vida profissional sempre preenchí o x no quadrado da disponibilidade para mudar de residência. Mesmo quando encontrava algum trabalho que me agradava, mesmo quando vivia alguma relação bem encaminhada. Às vezes pergunto-me qual a necessidade da ruptura cíclica. Mas não é uma escolha consciente, simplesmente as coisas vão acontecendo sem que eu tente contrariá-las. É desse modo que se pode entrar nos labirintos mais intricados, constituindo-me eu próprio um doente ou fingidor, provavelmente um fingidor. Instalei-me numa pensão à entrada da vila onde também funcionava um café e uma bomba de gasolina. Paravam por ali alguns locais, poucos forasteiros.
 
Foi-me dispensado um jipe com uma quantidade de quilómetros que não aconselhava afastar-se do alcatrão. A curiosidade e a minha imprudência congénita levava a distanciar-me muito para além dos limites da vila pelos caminhos interiores da reserva protegida. O motor aquecia e o desgaste das peças aumentava. Algumas vezes houve que reparar alguma avaria no imediato, com as mãos e a ajuda das ferramentas disponíveis. Após meio dia de capô aberto, o motor voltava a funcionar. Regressava à pensão com as mãos ainda negras do óleo; no relatório diário nunca mencionava nenhum incidente destes – era indiferente, não havia orçamento para substituir peças. Chegava com as mãos sujas de óleo seco. Era de esperar que alguém olhasse para as minhas mãos. Os percalços não são incríveis e não me causam admiração: “Um pequeno transtorno, um atraso insignificante, o tempo de perceber onde estava a avaria para poder consertá-la. O óleo resequido desaparece com água e sabão. Não haverá mancha. Não deixarei marcas. Continuarei a cumprimentar quem quer que seja; fechar a mão sobre a mão de qualquer um; sem luvas, tocar a cara de alguém. O jipe tem um rádio roufenho que só se cala quando acabo o dia. Amanhã o motor vai funcionar melhor que nunca. Posso voltar a ouvir as notícias de hora a hora.”

domingo, 24 de junho de 2012

Cadaqués

Ao intervalo fui apanhar ar. Do lado esquerdo da rua aproximava-se uma rapariga que caminhava cambaleando. Trazia um casaco vermelho que contrastava de modo provocador com os cabelos loiros que lhe caíam sobre os ombros. Um carro acelerou na sua direcção e ela aproximou-se dos carros estacionados na berma. Parou junto a um dos carros e viu-se ao espelho retrovisor. Passou a mão pelo cabelo. Os fios de cabelo que lhe tocavam os ombros estavam oleosos e colavam-se uns aos outros, como uma mão cheia de palha húmida atada com um cordel. Quando reiniciou a caminhada os passos pareciam ainda mais inseguros. Acenou a um táxi que não se deteve e passou à minha frente sem notar a minha presença. Podia chamá-la pelo nome mas preferi voltar ao meu lugar ao balcão. Sabia que ela chegaria à porta do prédio e se sentaria à minha espera no banco que havia em frente.

Todas as semanas voltava com uma garrafa de espumante. Pedia-me que a abrisse. Declinava esse pequeno gesto de celebração. A rolha saltava. Parecia expulsa com o impulso quebrado de todo o vácuo acumulado na minha sala. De semanas anteriores, acumulavam-se algumas rolhas no chão. Ela notava o meu desleixo mas era-lhe indiferente. Deixava-lhe o primeiro trago. Molhava os lábios, que ficavam brilhantes, e passava-me a garrafa. Perguntava-lhe que tal as coisas e dava sempre a mesma resposta: começaria com aulas de inglês e estava a ponto de inscrever-se num curso para hospedeiras de bordo. Sempre a mesma resposta. Ela de pé e eu sentado no sofá verde. Dizia-lhe que estava cansado e olhava pela janela aberta. Não havia nenhum ponto de interesse que me fixasse a atenção. Um carro buzinava. Grande parte dos vizinhos despachava o problema de estacionamento deixando o carro em segunda fila. Ali os carros buzinavam sempre. Acordava de noite com os carros a buzinarem. Algumas vezes não conseguia voltar a conciliar o sono e dava voltas na cama até o despertador tocar. Não me importava. Não adormecia e não chegava tarde ao trabalho. Acumulava poupanças para umas férias em Cadaqués. Alugaria um quarto numa rua que não tivesse mais de 6 metros de largura e enquanto ela me beijava o pescoço imaginava-me em Cadaqués; imaginava a sua saliva como a água morna do mediterrâneo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Amo Bishop Roden

Apaixonou-se pela integrante de uma seita religiosa; dissidente dos Protestantes e originária dos Estados Unidos mas com seguidores um pouco por toda a Europa. Estava internado num hospital. Na cama ao lado estava um seguidor da seita, tão moribundo quanto convencido da vida eterna que o esperava. Um grupo reformista que estudava a Bíblia, ano após ano, desde o Génesis ao Apocalipse. Todos os ofícios tinham por base a leitura e o comentário da Bíblia como texto fundador. Ela veio um dia de semana à tarde, já depois do horário normal da visita. Deve ter convencido as enfermeiras da bondade e necessidade da sua presença consoladora. Dar ânimo ao moribundo. Ajeitou a roupa da cama. Comentou algo relacionado com a luz que entrava pela janela. Não tinha outra ambição para além da vida eterna num vindouro paraíso celestial. Notava-se no modo como tocava nas coisas. Notava-se-lhe nas mãos. Colocava um extremo cuidado no modo como tocava. Como se a sua carícia cicatrizasse. O seu objectivo era passar com distinção no dia do julgamento final. E o moribundo, como seria de esperar, morreu ao seu lado. Não sem antes o ter visitado umas quantas vezes mais. Isso deu-lhe a oportunidade para conhecê-la. Trabalhava num escritório de transitários que estava à beira da falência. Nos tempos mortos lia os versículos do novo testamento com a concentração com que as crianças vêem pela primeira vez no circo o domador enfiar a cabeça na boca do leão. Uma pessoa com o seu temperamento, niilista, anárquico, seria decerto a última pessoa do mundo a quem ela chegaria a dar atenção.

(...)

sábado, 24 de março de 2012

Spam

José caminhava pelo passeio. Dirigia-se à paragem do metro de superfície. Reconheci-o pela mala castanha que levava todos os dias. A mala de pele cheirava a comida, a refogado de cebola. Todos os dias José chegava ao escritório uns minutos depois de mim. Passava pela minha secretária e trocávamos umas impressões. As flutuações relativas às entradas nas páginas, os países de origem, as subidas e descidas no Google, a optimização de campanhas de publicidade, etc. Colocava a sua mala em cima da minha secretária e imediatamente cheirava a refogado de cebola. Imaginava que José chegaria a casa e deixaria a mala em cima de uma cadeira da cozinha ou directamente em cima da mesa. Revia alguns documentos enquanto a cebola dourava com a ajuda do azeite a ferver.

Anoitecera e os ramos das árvores da avenida filtravam a pouca luz que chegava desde o céu. Terminava mais um dia de trabalho. Acabava de arrancar o carro e abrandei a marcha logo que o reconheci. José era um solitário. Paradoxalmente, são os solitários que mais te podem surpreender. De entrada, terão uma visão das coisas menos permeável. É certo que algum deles também pode ser assassinos em série. Via todos os dias os jornais e não tinha informação da existência de qualquer assassinato nos últimos tempos. E encontro nas pessoas solitárias uma qualidade rara: não interrompem. Mesmo que mal interpretem, a seu bel-prazer, sabem escutar. Pelo menos mantêm-se mais tempo calados.

Convidei-o a entrar no carro. Comentámos o último despedimento na empresa. “Simone falava muito, tinha muitas opiniões”, concluí. Sem surpresa e porque José, segundo parecia, não entendia a correlação entre falar muito e ser despedido, entendeu que a ex-colaboradora falaria dele próprio, enquanto homem, suponho, porque mostrou-me um sorriso insinuante. Desviei a conversa porque não queria ser desmancha-prazeres. Falámos de trabalho. De últimos projectos. José trabalhava num programa capaz de conter todas as palavra e respectivos sinónimos da língua espanhola. Trabalhava sobre a versão inglesa, a única existente até ao momento. Falou-me de um programa bastante elaborado que não faria outra cosa senão atulhar a internet ainda com mais lixo. Como não percebia nenhum entusiasmo da minha parte mudou de assunto. Perguntou-me qualquer coisa sobre o ambiente de conflito que se vivia. Respondi-lhe que me era indiferente. Ele também pareceu não ter nenhuma opinião a respeito. Seguimos a viagem calados e apesar de não sermos amigos o silêncio não era incómodo.